SOBRE MORRER E NASCER DE NOVO

Poucos autores me tocam tanto quanto Rubens Alves.
Seus textos são de uma singularidade e de um refinamento poético que impossível lê-los sem terminar com aquela expressão no rosto de quem acabou de comer um doce: êxtase.
Um de seus escritos fala sobre a morte e o que brota dela.
” E o cadáver que você plantou no seu jardim, já começou a brotar? Pode ser que cada sepultura seja um jardim!”
De fato a morte, se analisada, pode nos ensinar muitas coisas, e a respeito de nós mesmos e de como vivemos.
O senhor Rubens Alves diz que “Todos os mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar”, e por mais óbvio que isso seja, não é que, não nos damos conta da fragilidade da vida?
Um dia estou aqui e no outro não estou mais.O que fiz enquanto estive? Será que segui a letra de Roberto Carlos ” ..se chorei ou se sorri o importante é que emoções eu vivi..”? ou será que segui a letra de Sérgio Britto “…devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer…”?
Quando abrimos o jornal pela manhã, ligamos o rádio ou a tv, ou ainda quando batemos papo com o desconhecido sentado ao nosso lado, corriqueiramente a conversa desemboca nas catástrofes que estamos vivendo: tsunamis, terremotos, maremotos, guerras, violência , é tudo ao mesmo tempo agora.
Você pensa nos mortos?Pensa no que fizeram, no que viveram, pensa se riram mais ou se choraram mais, se viveram seus sonhos, se amaram?
Eu penso.
Já disse que perdi meu pai muito cedo e uma das coisas que me fazem ter orgulho do meu velho é que, ele viveu tudo o que quis.Se arriscou, ganhou e perdeu também, mas gargalhou muito mais do que chorou, e fez outros sorrirem também por conta da sua alegria de viver.
Se pararmos só um pouquinho de complicar tanto a nossa vida, se não planejarmos milimetricamente o dia seguinte, se não esperarmos demais dos outros, se apenas nos preocupássemos em “ser” e não em “ter”, será que a viagem não seria mais divertida?
A criança é sábia porque vive o presente apenas, se vê uma poça d’água não pensa duas vezes para pular nela, porque sabe como vai ser divertido espirrar água pra tudo que é lado e molhar os pés.Um adulto quando vê a mesma poça imagina que a água pode estar contaminada, que vai sujar a roupa, que vai molhar os pés (e vai ser um saco), e imediatamente desvia dela.Ou seja, só enxerga o lado ruim da tal poça.
A poça d’água pode, em uma metáfora, ser a nossa própria vida: de quantas poças você tem desviado ultimamente?
O certo é que com os mortos só há uma coisa a fazer: enterrá-los.Mas a vida pode renascer a cada dia em que acordamos e temos uma nova oportunidade de fazer diferente, uma chance a mais para sorrir, uma chance para nunca mais sermos a mesma pessoa.
Os tsunamis e terremotos tem muito a nos ensinar…

Abaixo um presente, um dos textos mais lindos do Rubens.


Os Ipês-amarelos


Uma professora me contou esta coisa deliciosa. Um inspetor visitava uma escola. Numa sala ele viu, colados nas paredes, trabalhos dos alunos acerca de alguns dos meus livros infantis. Como que num desafio, ele perguntou à criançada: “E quem é Rubem Alves?”. Um menininho respondeu: “O Rubem Alves é um homem que gosta de ipês-amarelos…”. A resposta do menininho me deu grande felicidade. Ele sabia das coisas. As pessoas são aquilo que elas amam.
Mas o menininho não sabia que sou um homem de muitos amores… Amo os ipês, mas amo também caminhar sozinho. Muitas pessoas levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso. Gosto também de banho de cachoeira (no verão…), da sensação do vento na cara, do barulho das folhas dos eucaliptos, do cheiro das magnólias, de música clássica, de canto gregoriano, do som metálico da viola, de poesia, de olhar as estrelas, de cachorro, das pinturas de Vermeer (o pintor do filme “Moça com Brinco de Pérola”), de Monet, de Dali, de Carl Larsson, do repicar de sinos, das catedrais góticas, de jardins, da comida mineira, de conversar à volta da lareira.
Diz Alberto Caeiro que o mundo é para ser visto, e não para pensarmos nele. Nos poemas bíblicos da criação está relatado que Deus, ao fim de cada dia de trabalho, sorria ao contemplar o mundo que estava criando: tudo era muito bonito. Os olhos são a porta pela qual a beleza entra na alma. Meus olhos se espantam com tudo que veem.
Sou místico. Ao contrário dos místicos religiosos que fecham os olhos para verem Deus, a Virgem e os anjos, eu abro bem os meus olhos para ver as frutas e legumes nas bancas das feiras. Cada fruta é um assombro, um milagre. Uma cebola é um milagre. Tanto assim que Neruda escreveu uma ode em seu louvor: “Rosa de água com escamas de cristal…”.
Vejo e quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes, que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver.
Uma das minhas alegrias são os e-mails que recebo de pessoas que me confessam haver aprendido o gozo da leitura lendo os textos que escrevo. Os adolescentes que parariam desanimados diante de um livro de 200 páginas sentem-se atraídos por um texto pequeno de apenas três páginas. O que escrevo são como aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contêm todo um universo.
Mas escrevo também com uma intenção gastronômica. Quero que meus textos sejam comidos pelos leitores. Mais do que isso: quero que eles sejam comidos de forma prazerosa. Um texto que dá prazer é degustado vagarosamente. São esses os textos que se transformam em carne e sangue, como acontece na eucaristia.
Sei que não me resta muito tempo. Já é crepúsculo. Não tenho medo da morte. O que sinto, na verdade, é tristeza. O mundo é muito bonito! Gostaria de ficar por aqui… Escrever é o meu jeito de ficar por aqui. Cada texto é uma semente. Depois que eu for, elas ficarão. Quem sabe se transformarão em árvores! Torço para que sejam ipês-amarelos…

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